Como a psicologia moderna se apoiou na prática contemplativa, e o que esse encontro de tradições pode oferecer a quem se interessa pelo trabalho interior.
Durante a maior parte do século XX, a psicologia e a espiritualidade contemplativa se olhavam de lados opostos de um grande abismo. A terapia era ciência; a meditação era misticismo; as duas não se misturavam em nenhuma clínica respeitável. Então, nas últimas décadas, aconteceu algo notável. Os pesquisadores começaram a pegar as antigas práticas contemplativas, despi-las do enquadramento religioso e estudá-las em contextos clínicos e acadêmicos. O resultado é uma família de abordagens, muitas vezes agrupadas como terapias baseadas em mindfulness, que representam um dos encontros mais frutíferos entre a sabedoria antiga e a ciência moderna já alcançados. Para quem trilha um caminho espiritual e também tem curiosidade pela psicologia, este é um território interessante.
A ponte foi construída em grande parte por Jon Kabat-Zinn, que no fim da década de 1970 desenvolveu a Redução de Estresse Baseada em Mindfulness, um curso estruturado de oito semanas que ensinava meditação, escaneamento corporal e ioga suave, totalmente fora de qualquer contexto religioso. O curso despertou amplo interesse, e isso abriu a porta. Os psicólogos clínicos logo adaptaram a abordagem a condições específicas. A Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness é um programa estruturado que se apoia na prática de mindfulness e é ensinado por profissionais com formação, e quem convive com a depressão deve conversar com um profissional de saúde qualificado. Outras abordagens vieram em seguida, cada uma à sua maneira levando a habilidade contemplativa da consciência do momento presente, sem julgamento, para o trabalho de compreensão da mente.
No coração de todas elas está uma única mudança, silenciosamente revolucionária, na nossa relação com nossos próprios pensamentos e sentimentos. A maioria de nós passa a vida fundida ao próprio conteúdo mental, acreditando que os pensamentos são simplesmente verdadeiros e sendo arrastada por cada emoção. As terapias baseadas em mindfulness ensinam uma postura diferente: aprender a observar pensamentos e sentimentos como eventos mentais passageiros, e não como ordens ou fatos. Um pensamento depressivo como "eu não valho nada" pode ser recebido não com uma discussão desesperada, que muitas vezes fracassa, mas com uma observação calma: "estou tendo o pensamento de que não valho nada." Esse pequeno espaço, entre o eu e o pensamento, é onde vive a liberdade. A Terapia de Aceitação e Compromisso, uma abordagem muito próxima, se apoia exatamente nisso, ajudando as pessoas a parar de lutar contra a própria experiência interior e, em vez disso, dedicar sua energia a viver de acordo com seus valores mais profundos. O objetivo, em todas elas, não é eliminar os pensamentos e sentimentos difíceis, o que não é possível, mas mudar a relação com eles de forma tão completa que percam seu poder tirânico.
Hana havia passado por três episódios graves de depressão e vivia com medo constante do quarto. O tratamento convencional a ajudara a se recuperar todas as vezes, mas nada tinha interrompido o ciclo. Um curso de terapia cognitiva baseada em mindfulness lhe deu algo novo: não um jeito de discutir com seus pensamentos sombrios, o que ela tentara durante anos, mas um jeito de vê-los chegando e reconhecê-los como clima, e não como verdade. Quando a voz conhecida começava a sussurrar que ela era um fracasso e sempre seria, ela aprendeu a percebê-la cedo, a nomeá-la como o velho padrão se agitando e a se recusar a segui-la pelo caminho já tão batido. Os pensamentos continuavam vindo. Mas já não se transformavam automaticamente em uma espiral. Pela primeira vez, sentiu que tinha um ponto de apoio para lidar com os próprios pensamentos difíceis, e continuou o trabalho com a sua terapeuta durante um ano difícil.
A importância dessas abordagens vai além da clínica. Elas mostram que as práticas contemplativas no coração das tradições espirituais do mundo despertaram o interesse sério dos pesquisadores, que continuam a estudá-las. Se você sente atração pela meditação e pelo trabalho interior, pode tirar daí alguma tranquilidade: são práticas que pesquisadores e clínicos levam a sério o bastante para estudar. E, se você está enfrentando uma dor psicológica real, vale saber que essa ponte existe, e que procurar um terapeuta qualificado que trabalhe dessa forma não é um recuo no caminho espiritual, mas, muitas vezes, uma continuação fiel dele por outros meios.
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